Das vantagens de ser bobo

A imortal Clarice Lispector nos ensinou: “O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. Os espertos ganham dos outros, mas em compensação, os bobos ganham a vida”.

Não sei se você está concordando comigo. Eu vejo muita sabedoria no comportamento de um “bobo”. Pessoa calma, bom ouvinte, reflexivo e com enorme capacidade de retenção de informação e, o mais importante, de filtrar o que interessa. Em muitos relacionamentos, nos encontros associativos, em rodas de colegas ou em congressos de qualquer categoria, nunca falta aquele mais exaltado, de fala alta, que gosta de ser o centro das atenções e que monopoliza as falas e ações. Os “bobos”, por sua vez, assumem uma postura mais passiva, polida, sempre sorrindo, mas raramente rindo, e atentos a todos os elementos do ambiente. É claro que exceções existem, mas, em geral, são os “bobos” que lucram na história. A passividade e o silêncio geralmente estão relacionados à sabedoria, simpatia e sapiência.

No revés da mesma medalha, como vimos, está o “esperto”, que além de falastrão, quer dominar o ambiente e, não raro, se preocupa em levar vantagens em discussões ou negociações. Em geral, o “esperto” é aquele que quer ser o último a falar e a encerrar qualquer discussão. Enquanto o “esperto” fala e tenta se beneficiar da sua estratégia, o “bobo” pensa e, pensando, um mundo de ideias e soluções pode lhe aparecer, porque ele vê coisas que outros não veem.

Um exemplo dramático é quando alguém vende um produto qualquer a outra pessoa, sabendo que o funcionamento do mesmo não está perfeito, por qualquer detalhe técnico ou de fabricação. É uma situação hipotética em que dois “atores” estão presentes: o “esperto” e o “bobo”. O tempo dirá quem será o verdadeiro prejudicado nessa situação e, mais uma vez, o “esperto” acabará pagando um preço caro pela sua esperteza, perdendo o cliente, as amizades e até a honra.

É evidente que as exceções existem e eu não quero generalizar. O texto é apenas para refletirmos acerca do nosso comportamento, no dia a dia da nossa vida de relacionamentos e no mundo do trabalho. Devemos cultivar o hábito de sermos “bobos”, sem sermos tolos ou por demais inocentes. É na leveza do “bobo” que nasce a criatividade e a inovação. É na sutileza do “bobo” que está a paz de espírito, a capacidade de admirar os outros e o mundo e, em especial, a riqueza de dormir o sono tranquilo, sem ter que desenvolver úlceras estomacais ou neuroses

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